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"deveria estar te escrevendo após o almoço, naquele momento-herança da siesta, encalcado mesmo nos não-praticantes, ao som de uma tv distante que entoa diálogos babélicos semi-inaudíveis, incompreensíveis ... deveria te escrever no meio da tarde, ao resmungo grave dos motores das peruas da feira, dos batuques ocos das caixas de madeira empilhadas à sorte no canto, formando esculturas mutantes ... ou te escrever no início da noite, no assobio da brisa anil que incita as árvores a castanholarem, ritmando o berro agudo da cigarra que entra pela fresta, oras canto, oras vento ... mas te escrevo agora, como sempre, regurgitando pensamentos embaralhados, nesse abismo entre a escuridão profunda e a quase-luz, onde um maestro louco rege pássaros por uma orquestra histérica.
há dias que não durmo tia. mesmo dormindo por horas infinitas.
você dorme bem aí ? tem pássaros que cantam canções apropriadas, para cada hora ? tem horas aí ? ou os dias passam lânguidos, preenchidos por rotinas surdas, onde todos sabem o que fazer sem nunca ter sido pedido, onde cada ato complementa o anterior e prepara o próximo, numa eficiência cordial e plenitude gratificante ? o que você faz por aí tia ? acredito que tenha um papel importante .. não teria ido embora daqui por menos.
tava lá procurando o sono em meio a pensamentos que não são. que não são verdade, que não são prováveis, que não são saudáveis, que nao são abandonados. a cada busca eles tomam nova forma, mas o conteúdo permanece tia. e como o sono se esquiva e se esconde com maestria, eu só encontro esses mesmos fantasmas pelo caminho, que não fazem questão de se esconder. que me assombram pra me manter alerta. eles se disfarçam bem tia. acho que não existem disfarces aí. eles têm voz doce, que sussurra aquilo-que-se-quer-ouvir, contam histórias, fazem cafuné, e te servem manjares que lambuzam os dedos e amargam a boca.
você tá se alimentando ? tava tão magrinha quando saiu daqui. acho que a comida aí deve ser dos deuses. eu ando comendo assim-assim. ultimamente minha cabeça tem ocupado o restante dos meus órgãos e lhes diz não-cabe-mais-nada-aqui. nada no estômago, nada no coração ... abre exceção pra garganta, onde cabe um nó. e só.
ah, não quero te preocupar viu tia. é que seria bem bom te ouvir dizer coisas que me distraíssem, que me confortassem mais do que esses sonhos-acordada, essas palavras que meu cérebro faz ecoar pelo meu corpo vazio. você tem planos de quando volta ? seria bom se você tivesse férias. um tempinho. você já instalou telefone ?
quando puder avisa .. pode ligar, a hora que for. eu não vou estar dormindo mesmo."


Escrito por pôlo às 18h06
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